1 ano futevôlei: reflexões e devaneios

Bola Mikasa - já encontrei uma meia dúzia de gringos com essa pelota tatuada
Sem falsa modéstia, eu sempre me dei bem com esportes. Não me leve a mal, eu nunca fui craque de porra nenhuma, mas com pouco tempo de prática já era capaz de competir num nível aceitável. Futsal, natação, voleibol, vôlei de praia, ping-pong, snowboarding, surf e até o famigerado beach tênis. Lembro que nunca tinha pegado numa raquete (além de ping pong) e depois de trocar umas bolas já consegui jogar umas partidinhas.
Com esse histórico de atleta™, imaginei que ia tirar futevôlei de letra. Eu não podia estar mais errado. Tudo começou quando meu médico me recomendou abandonar o futebol: com uma condição estranha no meu joelho, esportes de impacto não me fazem bem. De brinde, tive que também abandonar o vôlei de praia e as corridas esporádicas. Eu não sou muito fã de academia, então passei a buscar alguma alternativa. Por casualidade, um amigo tinha feito algumas aulas de futevôlei e tinha o contato de um professor.
Eureka! Não poderia ser mais óbvio. Eu já era uma pessoa que passava mais tempo do que é considerado aceitável na praia, se eu pudesse somar a isso uma atividade lúdica, que me trouxesse bem estar, estaria diante de um win-win.
Primeira Aula: lição de humildade
Entrei em contato e agendei a minha aula experimental. O professor me explicou que as aulas são dividias por nível: branco, verde, amarelo, laranja, azul e preto (mais sobre esse tema em seguida). Fui humilde e perguntei se deveria começar do branco. Ele respondeu: “branco ou verde”. Escolhi o verde e cheguei com pinta de jogador caro. Camiseta do Trikas, marra e sorriso no rosto. “Vou deitar nesses gringos”, pensei.
Depois do aquecimento fomos fazer um educativo com o movimento mais básico do esporte: chapa. A teoria é simples, colocar o pé de lado e bater na bola com a região do tornozelo – assim aumentamos a área de contato com a bola e temos mais controle. A prática, por outro lado, é bem diferente. Depois de décadas chutando bola com peito de pé, quem disse que eu conseguia me posicionar pra acertar a bendita da chapa?
Fizemos outros educativos e terminamos simulando algumas situações de jogo. I WAS HOOKED.
Fui fisgado
Após a primeira aula eu só conseguia pensar em uma coisa: como que não descobri esse esporte antes? A sensação que tive foi muito parecida com a primeira vez que provei snowboarding: quero fazer isso pro resto da minha vida!
Praia, sol, gente que fica na praia mais tempo que eu, esporte, um “quê” de futebol e estilo boleiro, resenha, já mencionei praia? Me identifiquei profundamente e passei a dedicar praticamente todo meu tempo livre pra fazer aula & jogar alta. Era fim do verão, começo do outono, então estar na praia não era esforço algum.
Entretanto, mesmo tenho me apaixonado pelo esporte uma coisa passou a me incomodar: eu não estava “deitando nos gringos”, como imaginei. Muito pelo contrário, tava apanhando deles. Estava demorando muito pra efetivamente conseguir jogar. Diferente de qualquer outro esporte que eu já tinha provado até então, minha evolução estava a passos de tartaruga.
O processo de aprendizagem
Uma vez encontrei na internet uma “curva de aprendizagem”, que comecei a aplicar pra qualquer coisa que eu começo a aprender. A ideia é bem simples: partimos da estaca zero, temos um salto de evolução (afinal, sair do 0 pra 1 é fácil) e já achamos que pegamos o jeito. Na hora do aperfeiçoamento nos damos conta que na verdade não sabemos nada. É uma realização um tanto humbling (qual seria a tradução pra isso? Humilhante? Não me parece certo). Essa ideia me pareceu precisa quando comparei com minhas experiências ao aprender guitarra ou espanhol.

O que ninguém tinha me contado é que futevôlei é um esporte extremamente técnico. E que a evolução é muito mais lenta do que o gráfico anterior sugeria. De fato, há saltos de evolução, principalmente no início. O problema é que os saltos não são suficientes pra te colocar em um patamar de que já dê pra sair jogando.
Pessoalmente, isso me causou um pouco de frustração e ansiedade. Demorei pra aceitar a lição e respeitar o processo do esporte. No começo, todo aluno iniciante quer sair do verde o mais rápido possível e ir pro amarelo – todo mundo quer jogar.
As cores podem ser resumidas em:
- Branco e verde: iniciação
- Amarelo e laranja: consolidação
- Azul: aperfeiçoamento
- Preto: performance
Logo, eu percebi que o processo é semelhante ao gráfico anterior, mas que ele tem infinitos ciclos. Sempre há um pico e um vale. E isso se repete, e se repete e se repete outra vez. Minha ansiedade me fazia focar somente nos vales, mas a verdade é que, ao dar um zoom-out foi possível perceber o trend line apontava pra cima. Visualizevalue demonstra isso com maestria, clique nos links anteriores se tiver curioso.
Consolidação
Aprendi a confiar no processo e ter mais tranquilidade, menos pressa. Os picos e vales seguem acontecendo, mas agora eles são menos dramáticos, como se fosse o gráfico de uma corda de violão sendo tocada. No começo, os picos e vales são extremos, a medida que o tempo vai passando, a vibração continua, mas com menos amplitude. Estou contente com minha evolução e, recentemente, fui promovido para no nível laranja!
Na prática, isso significa que, somente depois de um ano dedicando cada minuto do meu tempo livre, fui capaz de começar a jogar partidas de verdade. Curva de aprendizagem realmente brutal – nunca tinha visto isso em nenhum outro esporte.

Mudança de vida
O mais interessante dessa história é a mudança de estilo de vida que o esporte me exigiu. Sendo um esporte tão técnico e físico, você tem que estar bem pra jogar bem. Estando viciado, você quer jogar sempre e pra jogar bem sempre, tem que estar bem sempre. Com isso, finalmente, eu consegui consolidar um estilo de vida com foco na saúde.
Eu recomecei minha “jornada fitness” faz uns 3 anos (qualquer hora eu escrevo sobre como me tornei um ex-gordo), mas sempre tive dificuldade em manter consistência. Era uma batalha constante e pesada, onde a disciplina era paga com muita força de vontade
Agora, como o exercício é algo que me faz feliz, estar em forma se tornou algo leve e prazeroso; e ir pra academia se tornou motivo de melhorar meu desempenho nas quadras. Deixou de ser o fim e tornou-se o meio. A melhor parte? O condicionamento físico do futevôlei é exatamente o mesmo do snowboarding. De maneira indireta, jogar futevôlei durante o ano me preparou para ter uma ótima temporada de inverno, mal posso esperar!
Finesse & Resenha
Não tem nada mais brasileiro do que uma boa contradição. É o famoso suco de Brasil: mistura-se universos opostos, coloca-se num liquidificador e bate tudo junto.
O futevôlei é o exemplo quintessential dessa característica. Como pode, um esporte tão técnico e elegante, ser praticado exatamente no ambiente mais democrático possível? É como ouvir jazz em um boteco da periferia ou comer caviar no carrinho de hot dog – possível, mas extremamente improvável.
O jeito brasileiro, caracterizado pela resenha, democratiza um esporte que, em um outro contexto, provavelmente não seria tão acessível. O mais bonito disso é que essa cultura está se perpetuando a medida que o esporte vai se popularizando e indo para outros países. As minhas memórias favoritas do mini-sabático são justamente dos dias que conheci e joguei com o pessoal do footvolleyperu.
Futuro?
Semana que vem jogo a ultima etapa de uma liga que estou participando. Até agora tive a proeza de ganhar um total de zero partidas, mas depois de um verão intenso de treinamento estou com uma expectativa boa. Objetivo inicial: ganhar uma partida, objetivo secundário: chegar no pódio. É a categoria mais fácil, não custa sonhar!